A prática de exercício é conhecida pelos benefícios para a saúde do corpo, mas um conjunto crescente de estudos indica que também pode ser valiosa para o cérebro. Um exemplo é uma investigação recente publicada na Nature Neuroscience, que concluiu que até movimentos muito simples - como contrair os músculos abdominais - podem activar um mecanismo que ajuda a remover resíduos do tecido cerebral.
Como é que isso acontece, na prática? E o que quer dizer, afinal, “limpar” o cérebro? Falámos com especialistas em neurologia para perceber melhor este processo e para conhecer outras formas pelas quais o exercício pode favorecer a saúde cerebral.
Como é que o exercício “limpa” o cérebro?
Segundo este estudo, quando mexemos o corpo, mesmo de forma subtil, os músculos abdominais geram alterações de pressão que deslocam ligeiramente o cérebro dentro do crânio. “Isto é importante porque o movimento parece ajudar a circulação do líquido cefalorraquidiano, o fluido que envolve o cérebro e a medula espinal”, afirma David Perlmutter, neurologista com certificação e autor de “Defensores do Cérebro: Aproveite o poder das suas células imunitárias para proteger o seu cérebro para toda a vida”. “Os investigadores acreditam que este efeito no líquido cefalorraquidiano pode ajudar o cérebro a eliminar resíduos que, de outra forma, poderiam contribuir para doenças neurodegenerativas.”
O papel do líquido cefalorraquidiano no movimento de resíduos
Para os investigadores, estas observações são relevantes porque, quando o cérebro se desloca no interior do crânio, os fluidos no interior e à sua volta também acompanham esse movimento, explica Janina Kamm, PsyD, neuropsicóloga clínica e professora assistente na The Chicago School. “Há outro fluido, chamado fluido intersticial, que fica entre as células cerebrais e transporta os resíduos produzidos pelo cérebro”, detalha. “Em teoria, o movimento do cérebro poderia empurrar o fluido intersticial para fora, em direcção ao espaço à volta do cérebro, onde existe um sistema de drenagem inato. Ao estimular o movimento desse fluido em direcção aos nossos sistemas de eliminação de resíduos, podemos ‘limpar’ o cérebro de forma mais eficaz.”
Limitações do estudo em ratos e o que isso significa
Até agora, esta investigação foi feita apenas em ratos, pelo que ainda não é possível aplicar directamente estas conclusões a humanos. Ainda assim, “a investigação científica básica como esta é a forma como construímos a base para compreender a biologia humana”, diz Kamm.
Antes de ser possível perceber por completo como manter o cérebro humano saudável, é necessário compreender, primeiro, a mecânica do seu funcionamento. Na visão de Kamm, trabalhos deste tipo ajudam a construir esse conhecimento. “Embora os ‘como’ e ‘porquês’ exactos ainda estejam a ser apurados, as evidências científicas sobre os benefícios do exercício físico para os seres humanos já são enormes”, afirma. “De tudo o que podemos fazer para promover um cérebro saudável, a actividade física regular é uma das medidas com evidência mais robusta.”
O que significa “limpar” o cérebro?
Então, quando se fala em “limpar” o cérebro, do que se trata exactamente? Não envolve água nem sabão, mas a ideia é comparável.
“A ‘lavagem’ ou ‘limpeza’ cerebral refere-se ao processo biológico em que o fluido flui para dentro, através e para fora do tecido cerebral para eliminar os resíduos metabólicos”, explica D. Kojo Hamilton, MD, neurocirurgião de coluna com certificação e professor de neurocirurgia na Escola de Medicina da Universidade de Pittsburgh.
LCR e fluido intersticial: os dois principais fluidos
De acordo com o Dr. Perlmutter, este processo depende sobretudo de dois fluidos: o líquido cefalorraquidiano (LCR) - o fluido transparente que envolve o cérebro - e o fluido intersticial (FI), que se encontra nos espaços entre as células cerebrais. À medida que circulam através e em torno do tecido cerebral, estes fluidos contribuem para remover resíduos metabólicos, compostos inflamatórios, excesso de proteínas e detritos celulares, refere. “Uma forma simples de pensar nisto é como enxaguar uma esponja”, diz. “Quando o cérebro se move ligeiramente, o fluido desloca-se através do tecido cerebral e pode ajudar a eliminar resíduos indesejados.”
Sono profundo e movimento como apoio ao mesmo sistema
Sabe-se que o sono profundo tem um papel central neste mecanismo de “limpeza”. Estudos anteriores mostraram que, durante o sono profundo, há um aumento do fluxo do líquido cefalorraquidiano.1 Esse aumento ajuda a eliminar resíduos metabólicos do cérebro, incluindo proteínas associadas à doença de Alzheimer.2, explica o Dr. Perlmutter.
“É precisamente aqui que este novo estudo se torna especialmente importante, porque sugere que podemos ter outra ferramenta potencial para apoiar este processo de ‘limpeza’: movimento e exercício”, refere. “As descobertas indicam que a actividade física pode promover o movimento de fluidos no cérebro acordado, através de movimentos mecânicos suaves do próprio cérebro.”
Este continua a ser um campo em evolução. “Os cientistas ainda estão a tentar compreender o quadro completo do que acontece quando este sistema de remoção de resíduos é interrompido ou se torna ineficiente”, afirma Kamm.
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