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Obesidade e perda de peso: dieta mediterrânica, gordura visceral, GLP-1 e cirurgia bariátrica

Mulher grávida sorridente prepara salada saudável numa cozinha clara com dispositivos de medição de saúde na bancada.

Em praticamente todo o mundo - e também em Portugal - é cada vez mais comum ver o excesso de peso tornar-se a norma. As estimativas da Organização Mundial da Saúde apontam para mais de 2,5 mil milhões de adultos com excesso de peso ou obesidade, um número que ajuda a perceber a dimensão desta crise de saúde pública.

Mas a obesidade não é apenas uma questão de “peso na balança”. É um fator de risco importante para várias doenças graves, como diabetes tipo 2, doença renal, enfartes e AVC. À medida que cresce a atenção ao tema, surge uma pergunta decisiva para muita gente: como perder peso e manter a saúde a longo prazo?

A obesidade é uma condição complexa, com muitos fatores a contribuir. Não é simplesmente o resultado de comer demais ou fazer pouco exercício.

Para muitas pessoas, o stress emocional e psicológico tem um papel central. Pressão no trabalho, preocupações financeiras, problemas familiares ou ansiedade social podem levar à alimentação emocional.

Outras pessoas podem desenvolver obesidade na sequência de depressão, que muitas vezes desorganiza os padrões alimentares e reduz a motivação para a atividade física.

Além disso, os estilos de vida atuais tornam o aumento de peso mais fácil do que nunca. Muitos passam horas sentados - no escritório, no carro ou no sofá - e os alimentos ultraprocessados, muito calóricos, estão por todo o lado, com forte marketing e grande disponibilidade.

Esta combinação de fatores comportamentais, psicológicos, sociais e ambientais cria um cenário em que ganhar peso se torna cada vez mais difícil de evitar - e ainda mais difícil de reverter.

Como a obesidade tem várias causas, também precisa de uma solução multifacetada. As abordagens mais eficazes seguem um modelo multimodal, em que profissionais de saúde - psicólogos, nutricionistas e médicos - trabalham em conjunto para apoiar as pessoas no percurso de perda de peso.

Este trabalho em equipa não se limita à dieta e ao exercício: também enfrenta desafios emocionais e de saúde mental que muitas vezes estão na base do problema.

Esta estratégia é particularmente eficaz em pessoas com pré-diabetes, uma situação em que a glicemia está elevada, mas ainda não no intervalo de diabetes. A investigação tem mostrado que mudanças no estilo de vida, orientadas por uma equipa multidisciplinar, podem reduzir de forma significativa o risco de evolução para diabetes.

Embora perder 5–7% do peso corporal seja um bom objetivo para diminuir riscos de saúde, investigação recente da nossa equipa em Tübingen, na Alemanha, mostra que combinar perda de peso com controlo da glicemia é ainda mais eficaz. Dados de outro estudo indicam que dar atenção a ambos os aspetos está associado a menos complicações da diabetes, como lesão renal e problemas nos pequenos vasos sanguíneos.

Visceral fat

Porque é que esta combinação é tão poderosa? A explicação parece estar no facto de que quem consegue perder peso e, ao mesmo tempo, baixar os níveis de açúcar no sangue tende a reduzir a gordura visceral - o tipo de gordura armazenado em redor dos órgãos internos, na zona abdominal.

A gordura visceral é especialmente perigosa porque desencadeia inflamação no organismo, o que, por sua vez, pode diminuir a eficácia da insulina, a hormona que regula a glicemia.

Felizmente, há mudanças no estilo de vida que ajudam de forma específica a reduzir a gordura visceral. Por exemplo, a prática regular de atividade física - sobretudo exercício aeróbio - e dietas ricas em ácidos gordos polinsaturados (presentes em frutos secos, sementes, peixe e óleos vegetais) mostraram ser particularmente eficazes. Entre vários planos alimentares, a dieta mediterrânica, que dá prioridade a cereais integrais, gorduras saudáveis, vegetais e proteínas magras, destaca-se como especialmente eficaz.

Juntar exercício regular a uma alimentação ao estilo mediterrânico não é apenas útil para perder peso: também favorece a saúde cardiovascular e metabólica no longo prazo. Ainda assim, para muitas pessoas, manter estes hábitos ao longo do tempo continua a ser difícil.

A investigação mostra que uma parte significativa de quem perde peso volta a recuperá-lo ao fim de alguns anos. E, à medida que o peso regressa, regressam também riscos associados, como diabetes, hipertensão e colesterol elevado.

Este ciclo de perda e recuperação de peso pode ser frustrante e emocionalmente desgastante, levando muitas pessoas a procurar alternativas com resultados mais sustentáveis.

Medication and surgery

Nos últimos anos, os agonistas do recetor GLP-1 - uma classe de fármacos inicialmente desenvolvida para tratar a diabetes - têm mostrado potencial para promover a perda de peso.

Estes medicamentos imitam a hormona GLP-1 (peptídeo 1 semelhante ao glucagon), libertada pelo intestino após a refeição. Ajuda a regular o apetite ao aumentar a sensação de saciedade e também estimula a libertação de insulina, reduzindo a glicemia.

No entanto, os medicamentos à base de GLP-1 estão a ser cada vez mais usados para perda de peso com fins cosméticos, o que levanta preocupações éticas e de segurança. Embora possam ser eficazes, o impacto a longo prazo em pessoas sem obesidade continua pouco esclarecido.

Os efeitos secundários podem incluir náuseas, vómitos e problemas mais graves, pelo que a sua utilização deve ser sempre orientada por um profissional de saúde.

Uma limitação importante destes fármacos é que os benefícios tendem a desaparecer após a interrupção do tratamento, levando a uma rápida recuperação de peso. Por isso, para manter os ganhos em saúde, pode ser necessário uso prolongado - ou mesmo permanente.

Para pessoas com obesidade grave, sobretudo quando existem complicações relevantes como diabetes tipo 2 ou doença cardíaca, a cirurgia bariátrica pode transformar a vida. Procedimentos como o bypass gástrico ou a gastrectomia vertical (sleeve) reduzem o tamanho do estômago e, em alguns casos, alteram a sinalização hormonal do intestino.

O resultado é uma perda de peso significativa e sustentada e uma diminuição do risco de doenças associadas à obesidade, incluindo uma redução importante do risco de doença cardíaca e de morte prematura. A cirurgia bariátrica não é adequada para todos, mas, quando indicada, continua a ser uma das intervenções mais eficazes disponíveis.

Entretanto, investigadores estão a desenvolver novos medicamentos que combinam os efeitos de várias hormonas intestinais para potenciar a perda de peso. Alguns poderão alcançar resultados comparáveis aos da cirurgia bariátrica, mas a maioria ainda está a ser avaliada em ensaios clínicos.

Winning combination

Para quem está a começar o percurso de perda de peso, a combinação de atividade física com uma alimentação saudável - como a dieta mediterrânica - continua a ser o melhor ponto de partida. Quando mantidas, estas mudanças podem trazer melhorias duradouras no peso, na glicemia e na saúde global.

Para quem tem açúcar no sangue elevado, é especialmente relevante reduzir a gordura visceral através de mudanças combinadas no estilo de vida e gestão da glicemia. E para pessoas que lidam com obesidade e problemas de saúde associados, terapêuticas médicas e opções cirúrgicas são ferramentas fortes para apoiar uma mudança duradoura.

No fim de contas, a chave para uma perda de peso sustentada e uma saúde melhor passa por reconhecer que não existe uma solução única para todos. Trata-se de encontrar a combinação certa de apoio, estratégia e ciência que funcione para cada pessoa.

Reiner Jumpertz-von Schwartzenberg, Professorship for Clinical Metabolism and Obesity Research, University Hospital and Medical Faculty, University of Tübingen

This article is republished from The Conversation under a Creative Commons license. Read the original article.

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