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Chimpanzés, fruta fermentada e 14 gramas de etanol por dia: o que isto revela sobre o álcool humano

Chimpanzé a comer fruta madura perto de um lagar de azeite com prateleiras de garrafas ao fundo.

Cientistas que seguem estes primatas mostraram agora que a preferência por fruta naturalmente fermentada lhes fornece uma dose diária de álcool - e que este hábito antigo pode estar intimamente ligado à nossa própria atracção por beber.

Chimpanzés e o álcool “escondido” na alimentação

Quando se fala em álcool, a imagem mais comum é a de um copo de vinho, uma cerveja à pressão ou, talvez, um cocktail. No entanto, o etanol - o único tipo de álcool que os humanos conseguem consumir com segurança em doses moderadas - aparece também em alimentos muito mais banais.

Pão de massa-mãe, kombucha, bananas bem maduras esquecidas na fruteira ou mangas a fermentar no chão podem conter pequenas quantidades de etanol produzido naturalmente. Isto acontece porque as leveduras degradam os açúcares presentes nesses alimentos e libertam álcool, mesmo sem que exista qualquer cervejeiro ou destilador.

Para chimpanzés em estado selvagem, a fruta demasiado madura e já a fermentar não é uma curiosidade: faz parte do dia a dia. Em certas florestas da África Oriental e Ocidental, é comum vê-los recolher fruta caída no solo, muitas vezes já nas fases iniciais de fermentação.

"Dia após dia, os chimpanzés estão, na prática, a fazer microdosagem de álcool através de uma dieta rica em fruta."

Há muito que os investigadores suspeitavam que este comportamento poderia ser relevante para perceber como grandes símios e humanos lidam com o álcool. O trabalho de campo mais recente veio, finalmente, quantificar essa exposição.

Uma dose diária equivalente a meia pinta de cerveja

Num estudo publicado na revista Science Advances, os cientistas analisaram os níveis de etanol em fruta caída consumida por chimpanzés em dois locais-chave: o Parque Nacional de Kibale, no Uganda, e o Parque Nacional de Taï, na Côte d’Ivoire. Ambas as florestas acolhem comunidades de chimpanzés bem estudadas e acompanhadas ao longo de décadas.

A equipa avaliou a quantidade de fruta ingerida e o grau de fermentação que essa fruta atingia depois de cair no chão e começar a fermentar. Nestas regiões, os chimpanzés podem comer até 4,5 quilogramas de fruta por dia.

Com base nesses dados, os autores estimaram que os animais ingerem cerca de 14 gramas de etanol puro por dia. Em termos humanos, isto corresponderia aproximadamente a beber meia pinta de cerveja a 5%.

"Para um chimpanzé que vive na floresta, a comida de um dia ‘normal’ pode trazer a mesma carga de álcool do que uma pequena cerveja."

Este nível não faria, em geral, um adulto humano sair cambaleante de um bar - mas está longe de ser irrelevante. A conclusão aponta para algo importante: a exposição regular ao álcool não parece ser uma excentricidade recente dos humanos, podendo ter raízes evolutivas profundas partilhadas com outros primatas.

Não há chimpanzés embriagados à vista

Apesar desta ingestão constante, os observadores não descrevem bandos de chimpanzés embriagados a balançar nas árvores. Na verdade, nos grupos analisados, não foram registados sinais evidentes de intoxicação.

Os investigadores sublinham que o álcool é consumido ao longo do dia, diluído numa grande quantidade de fibra, água e nutrientes. Para um chimpanzé ficar visivelmente bêbedo, explicam, teria de se empanturrar com fruta extremamente fermentada até ficar com o estômago quase dolorosamente inchado.

Esta exposição contínua, mas baixa, sugere que o organismo dos chimpanzés - tal como o nosso - é eficiente a metabolizar quantidades moderadas de etanol. Enzimas no fígado e no intestino processam o álcool com rapidez, mantendo os níveis no sangue relativamente baixos.

O que os hábitos de “beber” dos chimpanzés dizem sobre nós

As implicações vão além da biologia da vida selvagem. A equipa defende que o gosto humano pelo álcool pode estar enraizado nesta relação antiga entre primatas e fruta fermentada.

"Os humanos podem sentir-se atraídos pelo álcool porque, durante milhões de anos, o etanol sinalizou fruta madura e rica em calorias, que valia a pena comer."

Na natureza, o cheiro a etanol pode funcionar como um verdadeiro sinalizador. A fruta fermentada tende a ser macia, muito açucarada e cheia de energia. Para um primata com fome, seguir esse aroma ligeiramente alcoólico pode traduzir-se numa estratégia eficaz de sobrevivência.

Ao longo do tempo evolutivo, indivíduos que sentiam uma recompensa subtil ao consumir fruta com etanol poderiam ter tido vantagem a localizar estas “manchas” alimentares valiosas. Essa predisposição teria sido transmitida, contribuindo para que cérebros de primatas associassem o sabor e o odor do álcool a algo positivo.

Outros primatas com gosto por álcool

Os chimpanzés não são os únicos primatas apanhados a consumir álcool. Há relatos no terreno sobre lóris-lentos - pequenos primatas nocturnos do Sul e do Sudeste Asiático - que, ocasionalmente, lambem bebidas alcoólicas fortes deixadas por humanos.

Também existem histórias conhecidas de macacos que invadem estâncias de férias, roubam cocktails e depois exibem comportamentos muito familiares após alguns goles. Mesmo que estas anedotas tenham graça, repetem a mesma ideia de fundo: muitos primatas reagem ao álcool e alguns procuram-no activamente.

  • Chimpanzés: consomem etanol de forma natural através de fruta fermentada.
  • Lóris-lentos: são conhecidos por beber bebidas alcoólicas fortes quando têm acesso a elas.
  • Populações humanas: produzem álcool por fermentação e destilação de forma intencional, muito acima dos níveis naturais.

A hipótese do “macaco bêbedo”

Os novos resultados dão força ao que alguns cientistas chamam a hipótese do “macaco bêbedo”. Segundo esta proposta, os nossos antepassados teriam evoluído uma preferência pelo etanol precisamente por este estar associado a fruta madura e densa em energia.

Com o passar do tempo, os mesmos circuitos cerebrais que empurravam primatas para fruta fermentada podem ter deixado os humanos especialmente receptivos à fermentação deliberada e ao fabrico de bebidas. Quando a nossa espécie aprendeu a produzir álcool de propósito, acabou por “hackear” um instinto antigo de procura de alimento.

"Pubs modernos, bares de vinho e lojas de bebidas podem ser expressões culturais de uma tendência biológica muito antiga."

Claro que viver em cidades com supermercados e destilarias não tem nada a ver com procurar comida numa floresta tropical. O álcool que antes surgia diluído na polpa da fruta está hoje disponível em garrafas e latas concentradas, com graduações muito acima do que um chimpanzé selvagem encontraria.

Afinal, quanto são 14 gramas de etanol?

Para quem está habituado a ler rótulos de bebidas, estes valores podem parecer abstractos. Eis a que é que 14 gramas de etanol puro correspondem, aproximadamente, em bebidas comuns:

Bebida Dose típica Teor aproximado de etanol
Cerveja a 5% Meia pinta (cerca de 284 ml) ~14 g
Vinho a 12% Copo pequeno (125 ml) ~12 g
Bebidas espirituosas a 40% Dose simples (25 ml) ~8 g

Assim, num dia típico, um chimpanzé destas florestas está, na prática, a ingerir o equivalente alcoólico a uma pequena cerveja - sem copo e sem banco de bar.

O que isto significa para os hábitos de consumo humanos

Olhar para o problema sob um prisma evolutivo não desculpa consumos nocivos, mas pode ajudar a perceber porque é que o álcool é tão apelativo para tanta gente. A nossa química cerebral não se formou numa sociedade de “cocktail hours” e “happy hours”. Evoluiu em ambientes em que um pouco de etanol significava fruta nutritiva, e não um pack de seis.

Alguns investigadores sugerem que compreender este contexto pode contribuir para abordagens mais realistas à política de álcool e à saúde pública. Se a atracção pelo álcool tem raízes biológicas profundas, mensagens que a tratam apenas como falha moral deixam uma parte relevante da história de fora.

Da fruta do bosque às prateleiras do supermercado

Há ainda um aviso sobre o papel do contexto. Para um chimpanzé, o etanol vem “embrulhado” em fibra, vitaminas e quantidades limitadas. Para os humanos, surge muitas vezes separado de nutrientes e servido em porções grandes e baratas.

Imagine se cada unidade de álcool que bebêssemos estivesse trancada dentro de dois quilos de fruta fibrosa. Beber em excesso seria fisicamente mais difícil. O estômago ficaria cheio muito antes de o fígado ficar sobrecarregado.

"A nossa biologia ainda espera fruta; as nossas sociedades entregam garrafas."

Termos-chave que vale a pena esclarecer

Etanol: o tipo específico de álcool presente nas bebidas alcoólicas e em alimentos fermentados. É produzido quando leveduras degradam açúcares. Outros álcoois, como o metanol, são tóxicos mesmo em pequenas quantidades.

Fermentação: processo natural em que microrganismos, como leveduras, transformam açúcares em álcool e dióxido de carbono. Não exige fábricas: acontece tanto na fruta caída como num tanque de cervejaria.

Alimentos fermentados: produtos como alguns pães, kombucha, kefir e fruta madura contêm pequenas quantidades de etanol, geralmente inofensivas e muitas vezes demasiado baixas para provocar qualquer efeito subjectivo.

Uma experiência mental para quem bebe hoje

Imagine um grupo de humanos antigos a seguir, pela floresta, um aroma intenso e frutado. Encontram uma árvore com o chão coberto de fruta mole e a fermentar. Comer ali não só os alimenta como pode também relaxá-los ligeiramente, reforçar laços sociais e incentivá-los a voltar ao mesmo local.

Agora mude o cenário para o presente: um grupo de amigos que se encontra num bar depois do trabalho. O ambiente é outro e as bebidas são mais fortes, mas os circuitos cerebrais que respondem ao etanol não são totalmente novos. São ecos de milhões de anos de comportamento de procura de alimento.

Perceber essa ligação pode levar a uma visão mais matizada do álcool: não apenas como um vício moderno, mas como uma substância poderosa que activa um hábito muito antigo dos primatas - que os chimpanzés continuam, discretamente, a praticar todos os dias nas florestas de África.


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