Saltar para o conteúdo

IVA zero na dieta mediterrânica: Liliana Sousa e a Ordem dos Nutricionistas alertam para os preços

Mulher e menino compram tomates numa feira ao ar livre com bancas de frutas e legumes variados.

A bastonária da Ordem dos Nutricionistas, Liliana Sousa, considera que deve ser aplicado IVA zero aos alimentos associados à dieta mediterrânica e avisa que o agravamento dos preços já impede muitas famílias de assegurar, sequer, "uma peça de fruta por dia".

Proposta de IVA zero para alimentos da dieta mediterrânica

Em declarações à agência Lusa, Liliana Sousa recordou que esta proposta foi entregue ao Governo e aos grupos parlamentares há mais de um ano, num contexto em que já se notava uma diminuição do rendimento disponível das famílias para conseguirem manter uma alimentação saudável.

"Começámos a perceber que muitas vezes a escolha não decorria de falta de informação, mas sim de falta de disponibilidade financeira para comprar aqueles alimentos", afirmou.

Apesar de a iniciativa ter sido chumbada no Orçamento do Estado para 2026, a Ordem dos Nutricionistas (ON) decidiu voltar a insistir, justificando a necessidade com o agravamento da insegurança alimentar, num período marcado pelo aumento dos custos da alimentação ligado à crise energética e às intempéries que prejudicaram a produção agrícola.

"Muitas famílias neste momento não têm capacidade de oferecer ao seu agregado familiar uma peça de fruta por dia", alertou.

Para a bastonária, o IVA zero deve ser encarado como uma intervenção estrutural de saúde pública, articulada com outras medidas, e não apenas como um instrumento de resposta económica de curto prazo.

Liliana Sousa defende que a isenção deve abranger os alimentos integrados no padrão da dieta mediterrânica - como fruta, legumes, peixe e azeite - em vez de se limitar a uma lista reduzida de produtos.

"A dieta mediterrânica é um padrão alimentar absolutamente nosso", afirmou, lamentando que, de acordo com os dados mais recentes, apenas cerca de 25% da população portuguesa cumpra actualmente alguns dos seus princípios.

Impacto nas famílias e nas refeições escolares

A responsável chamou ainda a atenção para as consequências junto das crianças, observando que muitas passam a fazer na escola a única refeição quente do dia e advertindo para os riscos decorrentes do subfinanciamento das refeições escolares.

"Se o investimento não ficar assegurado, inevitavelmente a matéria-prima acabará (...) por ter um custo mais baixo", disse, admitindo que isso poderá resultar em refeições mais processadas e mais ricas em açúcares e gordura, com efeitos na saúde a médio e longo prazo.

Educação alimentar e necessidade de fiscalização

Na perspectiva da bastonária, a proposta tem também uma dimensão de educação alimentar. "Ao sinalizarmos estes alimentos no momento da compra, estamos também a ensinar os consumidores a fazer escolhas alimentares mais saudáveis", explicou.

Ainda assim, sublinhou que uma medida deste tipo tem de ser acompanhada por mecanismos de fiscalização e de monitorização ao longo da cadeia alimentar, para assegurar que a redução do IVA se traduz, de facto, no preço final pago pelo consumidor.

"Há todo um conjunto dentro deste grande processo que deverá ser considerado, negociado, discutido e articulado com políticas públicas para que, efectivamente, possamos dizer que estamos todos a caminhar no mesmo sentido", defendeu.

Contactos políticos e saúde pública a longo prazo

Liliana Sousa referiu que já foi recebida em audiência pelos grupos parlamentares do PCP, Chega, PS e PSD, o que, segundo ela, reforça a atenção que deve ser dedicada ao estado nutricional da população, "base fundamental para que as pessoas tenham saúde".

A bastonária da ON admite que possam vir a ser ponderadas medidas nesta área - eventualmente na sequência da proposta apresentada - para melhorar o acesso da população a uma alimentação adequada. A este respeito, recordou que os hábitos alimentares inadequados estiveram associados a 7,9% das mortes em Portugal em 2023 e a 5,3% dos anos de vida saudável perdidos, surgindo entre os cinco factores de risco que mais contribuíram para a carga de doença no país.

Embora reconheça existir sensibilidade política sobre o tema, afirmou que o Governo continua sem evidenciar abertura para avançar com a medida, invocando o impacto orçamental e o facto de beneficiar transversalmente todos os consumidores.

Para Liliana Sousa, a alimentação deve ser integrada em estratégias nacionais de saúde de longo prazo, acima dos ciclos políticos. Nesse âmbito, revelou que a ON foi convidada a participar no "pacto estratégico para a saúde", uma iniciativa coordenada pelo antigo ministro da Saúde Adalberto Campos Fernandes e lançada pelo Presidente da República, António José Seguro.

"A nutrição tem que estar imune a fronteiras partidárias. A população é a mesma, os problemas serão os mesmos. É verdade que os executivos serão diferentes, as visões poderão também não ser as mesmas, mas há compromissos que são absolutamente inegociáveis, na minha perspetiva", declarou.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário