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Quarterlife-Crisis e Running-Boom: porque tantos correm a primeira maratona aos vinte e tal

Grupo de jovens a correr num parque à beira-rio numa manhã ensolarada.

Quem hoje está a meio dos vinte conhece bem o cenário: combinam-se uns copos ao fim do dia, à espera de ouvir novidades sobre bebés, planos de emigrar ou uma nova viragem profissional - e, de repente, alguém larga: “No próximo mês corro a minha primeira maratona.” O que antes parecia excecional soa, agora, quase como um novo normal. Correr transformou-se num ritual de uma geração que tenta pôr ordem no caos.

A nova crise de meio dos vinte vem de sapatilhas

Há anos que psicólogos e psicólogas falam da “Quarterlife-Crisis” - a crise do quarto de século. É aquela fase em que a escola já ficou lá atrás, o curso ou a formação acabaram, e, subitamente, tudo parece acontecer ao mesmo tempo: arranjar emprego, clarificar uma relação, talvez pensar em família, escolher cidade, procurar sentido.

É precisamente neste período que a corrida dispara em popularidade. Funciona como uma resposta quase perfeita à sensação difusa de já não controlar tudo. Num momento em que os contratos são temporários e as relações, muitas vezes, frágeis, existe aqui algo que dá para planear, medir e gerir: quilómetros, ritmo, frequência cardíaca, data da prova.

“A maratona torna-se um símbolo: quem consegue 42,195 quilómetros prova a si próprio que, num mundo caótico, pelo menos o próprio corpo está sob controlo.”

A lógica é direta: se as grandes decisões de vida continuam nebulosas, então que o plano de treinos, pelo menos, seja sólido.

Running-Boom: de modalidade de nicho a fenómeno de massas

Em vários países, os estudos apontam para o mesmo lado: correr já está entre as modalidades mais praticadas. Milhões de pessoas calçam regularmente as sapatilhas, e uma parte significativa tem entre os 20 e os 35 anos.

Depois dos confinamentos, a tendência intensificou-se. Os ginásios fecharam, os desportos de equipa ficaram limitados, mas sair para correr sozinho continuou a ser possível. O que começou como recurso de última hora passou a hábito fixo. Lojas especializadas reportam aumentos de vendas, sobretudo de sapatilhas e relógios GPS; as corridas de cidade esgotam; e as inscrições para grandes maratonas desaparecem em poucas horas.

  • Baixa barreira de entrada: no início, basta um par de sapatilhas e roupa funcional.
  • Grande flexibilidade: dá para correr de manhã antes do trabalho, ao fim do expediente ou na pausa de almoço.
  • Gestão individual: velocidade, distância e percurso ajustam-se ao momento de vida de cada um.
  • Evolução mensurável: os progressos aparecem depressa - em apps, relógios ou até no simples sentir do corpo.

Por isso, a corrida encaixa surpreendentemente bem em percursos marcados por estágios, mudanças de emprego, mudanças de cidade e contratos incertos. Onde tanta coisa parece instável, o plano de treino oferece um pedaço de estabilidade.

Recuperar o controlo: correr como forma de autogestão

Muitos jovens adultos dizem que correr os ajuda a não ficar preso ao “cinema da cabeça”. Tão importante como a condição física é o sentimento de voltar a ser protagonista da própria vida.

Motivações frequentes incluem, por exemplo:

  • Reduzir o stress: depois de um dia num open space, num hospital ou em teletrabalho, uma volta no parque serve de válvula de escape.
  • Definir objetivos claros: quando a carreira não oferece horizonte de longo prazo, uma meia maratona ou uma corrida de 10 quilómetros vira um projeto concreto.
  • Organizar emoções: após separações, falhanços ou mudanças, o treino torna-se uma espécie de terapia pessoal sobre asfalto.
  • Voltar a sentir o corpo: num trabalho muito digital, o ardor nas pernas funciona como um teste de realidade bem analógico.

“Correr dá uma promessa simples: se eu treinar com regularidade, fico melhor. Uma frase que no trabalho ou nas relações nem sempre é verdade.”

É este contraste que seduz. Enquanto candidaturas ficam sem resposta ou projetos são cancelados de um dia para o outro, o corpo tende a responder ao treino - mais devagar do que gostaríamos, mas de forma previsível.

As redes sociais aceleram: de passatempo a palco

Sem apps e redes sociais, o Running-Boom dificilmente teria esta escala. Plataformas como Strava, Nike Run Club ou Garmin Connect transformam cada treino num mini-evento com dados, gráficos e aplausos virtuais.

Hoje, quem corre raramente corre só para si. Cada sessão pode ser publicada, comentada, receber likes. A corrida torna-se conteúdo, e o corpo, uma marca. Mostrar recordes pessoais, desnível acumulado ou medalhas de maratona também comunica um certo estilo de vida: disciplinado, orientado para desempenho, atlético.

Com isso, o centro de gravidade muda. Deixa de ser apenas “manter a saúde” e passa também a ser “tornar a performance visível”. Isso dá motivação - e acrescenta pressão.

Quando a comparação vira obrigação

O que começa como incentivo mútuo pode rapidamente descambar numa espiral. Ao ver amigos a correr três ou quatro vezes por semana, surge a dúvida: estou a fazer o suficiente? sou lento demais? sou preguiçoso?

Daí nascem fenómenos pouco saudáveis, como utilizadores que “embelezam” os dados de desempenho ou pedem a terceiros que registem atividades por eles para subir em rankings. A expressão “Strava jockeys” tornou-se um símbolo dessa necessidade de parecer mais forte por fora do que se treina de facto.

“Até as corridas de lazer se tornam comparações de desempenho - quem não ‘entrega’ sente que está a ficar para trás, mesmo no tempo livre.”

Também do ponto de vista físico isto pode virar: quem se mede continuamente com os outros tende a ignorar sinais do corpo, continua a correr com dores ou aumenta o volume depressa demais apenas para salvar uma estatística virtual.

Correr como substituto moderno de marcos clássicos da vida

Para gerações anteriores, os “testes de adulto” eram outros: construir casa, casar, ter filhos, conseguir um emprego seguro e estável. Hoje, esses passos chegam mais tarde - ou nem chegam. A maratona ocupa simbolicamente esse espaço: oferece uma narrativa para contar, um projeto visível, uma linha nítida entre “antes” e “depois”.

Quem corre uma maratona recebe reconhecimento entre amigos, no trabalho e nas redes sociais. A medalha pendurada não substitui um apartamento próprio, mas representa resistência e força de vontade - virtudes fáceis de “vender” e que podem até ganhar peso no currículo.

O que a corrida faz à identidade

De “gosto de fazer jogging” passa-se depressa para “sou corredor” ou “sou corredora”. Isto vai além de um hobby: entra na resposta à pergunta “quem sou eu?”. Num presente em que se acumulam papéis - trabalhador por conta de outrem, freelancer, nómada digital, parceiro, solteiro - esta identidade funciona como um rótulo claro.

O problema aparece quando esse rótulo se torna estreito demais. Se a identidade assenta muito na performance, uma lesão ou uma fase mais fraca podem ser vividas como uma pequena rutura identitária. De repente, não é só o treino que fica em causa, é a própria imagem de si.

Saudável, arriscado - ou ambos ao mesmo tempo?

Do ponto de vista médico, há muitos argumentos a favor da corrida regular: fortalece coração e sistema cardiovascular, reduz de forma comprovada o risco de várias doenças, ajuda no sono e melhora o humor. Muitos relatam que lidam melhor com ansiedade, ruminação e stress quando correm uma a três vezes por semana.

Ao mesmo tempo, existem riscos:

  • Sobrecarga: aumentar o volume depressa demais pode causar problemas no joelho, na canela ou no tendão de Aquiles.
  • Perfeccionismo: quando cada treino é avaliado ao milímetro, o hobby pode virar mais um fator de stress mental.
  • Pressão social: ao comparar-se com amigos ou influenciadores, perde-se o próprio ritmo.
  • Mecanismo de fuga: se correr serve apenas para evitar problemas, a “obra” principal continua por fazer.

“Entre o autocuidado e a obsessão pela auto-otimização há uma linha muito fina - e muitos jovens adultos equilibram-se exatamente nesse limite.”

Como a corrida dá estabilidade - e onde faz sentido pôr limites

Quando bem usada, a corrida pode funcionar como âncora: compromisso fixo no calendário, escape para a pressão, estrutura em fases de vida confusas. Pessoas com horários flexíveis - turnos, freelancing, teletrabalho - dizem muitas vezes que só conseguem organizar o dia a dia graças a dias de treino definidos.

Para tirar partido disso, costuma ajudar seguir regras simples: metas realistas, dias de descanso e, de vez em quando, um treino sem relógio. Uma corrida de 5 quilómetros depois de um dia duro pode valer mais do que 10 quilómetros de intervalos “perfeitamente” programados, se no fim o corpo e a cabeça estiverem mais calmos.

O que também é interessante é para onde isto vai. Já há sinais de contra-movimentos: grupos que correm explicitamente “sem pressão de ritmo”, community runs em que conversar pesa mais do que bater recordes, ou eventos que evitam, de propósito, rankings. Nota-se uma vontade crescente de manter o lado bom do Running-Boom sem cair numa auto-otimização constante.

A “crise do quarto de século” não desaparece - apenas muda de forma. Em vez de ser vivida em silêncio, muita gente leva-a agora para a rua, calçada em sapatilhas. Se isso liberta a longo prazo ou cria novas amarras dependerá menos do total de quilómetros - e mais de quão honestamente cada um corre consigo próprio.


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