Durante anos, o pacto comercial entre a UE e os países do Mercosur foi um dossiê técnico tratado em Bruxelas. Agora, o tema chega diretamente à mesa do pequeno-almoço. Afinal, o acordo influencia que carne, que arroz, que mel e que vinhos poderão entrar na Europa a preços mais baixos - e em que pontos os produtores da UE podem ficar sob forte pressão.
O que está por detrás do acordo Mercosur
Mercosur é o nome de um mercado comum na América do Sul que integra Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia. Ao ligar-se à UE, forma-se um dos maiores espaços comerciais do planeta. Em conjunto, os dois blocos reúnem cerca de 780 milhões de consumidores e, somados, colocam-se em quinto lugar no mundo em termos de produto interno bruto.
A maioria dos Estados-membros da UE deu luz verde ao acordo, apesar de alguns países - como França, Áustria, Irlanda, Polónia e Hungria - terem manifestado um “não” inequívoco. Nas negociações e decisões pesam sobretudo ministros da economia e diplomatas; no fim, porém, quem muitas vezes suporta os efeitos são agricultores, pequenas empresas alimentares e consumidores.
"Peça central do acordo: mais de 90% das tarifas aduaneiras sobre bens entre a UE e os países do Mercosur serão eliminadas de forma faseada."
Embora o texto também abranja automóveis, química, farmacêutica e serviços, a questão mais emocional - e politicamente mais explosiva - é outra: o que acontece aos nossos alimentos?
Estes produtos europeus ficam sob pressão com o acordo
Com o desmantelamento das tarifas aduaneiras, os setores onde os agricultores da UE tinham até aqui uma certa proteção tornam-se mais expostos. Na prática, o impacto concentra-se em várias áreas-chave da agricultura e da indústria alimentar europeias.
Vinho e espumante: concorrência reforçada no mercado
O setor do vinho na Europa fica numa posição ambivalente. Por um lado, o acordo facilita a entrada em novos mercados para produtores da Alemanha, França, Itália ou Espanha. Por outro, a concorrência aumenta, porque vinhos sul-americanos passam a chegar com mais facilidade à Europa e podem tornar-se mais apelativos no preço nas prateleiras do supermercado.
- Produtores da UE beneficiam de tarifas mais baixas ao exportar para a América do Sul.
- Ao mesmo tempo, enfrentam mais competição de vinhos do Brasil ou da Argentina.
- Construção de marca e selos de origem tornam-se ainda mais decisivos em termos estratégicos.
Azeite: mais competição para os países mediterrânicos
Quem produz azeite - sobretudo em Espanha e Itália - já opera com custos sob pressão. Com a descida das tarifas de importação sobre óleos vegetais provenientes da América do Sul, surge uma camada adicional de competição, sobretudo nos segmentos mais económicos destinados à restauração e a grandes consumidores.
Por isso, lagares pequenos e médios terão de apostar ainda mais em qualidade, transparência e origem regional para se diferenciarem do produto importado.
Leite, leite em pó e chocolate
A fileira europeia do leite também é atingida de forma direta. O acordo torna mais simples o comércio de lacticínios e de leite em pó em ambas as direções. Para grandes grupos do setor, isto pode traduzir-se em novas oportunidades de escoamento; já os produtores regionais na UE receiam maior pressão sobre os preços.
No caso do chocolate, os fabricantes podem ganhar com matérias-primas mais baratas - por exemplo açúcar ou certos tipos de gorduras. Em contrapartida, aumenta a concorrência de produtos transformados vindos da América do Sul, que passam a entrar com mais facilidade no mercado da UE.
Origem protegida: o que acontece com DOP e IGP
Um elemento importante do acordo é o reconhecimento e a proteção das denominações de origem europeias. DOP (Denominação de Origem Protegida) e IGP (Indicação Geográfica Protegida) deverão ser respeitadas nos países do Mercosur e não poderão ser copiadas.
"Muitos produtos tradicionais com origem bem definida continuam a ser considerados 'intocáveis' - pelo menos no papel."
Exemplos de alimentos protegidos
Entre os produtos abrangidos por proteção contam-se, por exemplo:
- Queijos como Comté, Gruyère ou Roquefort
- Vinhos e vinhos espumantes como Chablis ou Champagne
- Bebidas espirituosas como rum de regiões das Caraíbas sob proteção da UE
- Manteiga com indicação clara de origem, por exemplo de determinadas regiões de França
- Ostras provenientes de zonas de produção definidas
- Frutos secos e especialidades como certos produtos à base de ameixa
- Arroz de áreas de cultivo claramente delimitadas
- Especialidades regionais de carne de bovino e de presunto
Para consumidores em Portugal, isto significa: ao escolher produtos com origem protegida, continua a comprar-se um artigo cujo nome não pode ser imitado arbitrariamente. O termo “Champagne”, por exemplo, não poderá ser usado para qualquer espumante vindo de fora.
Novas quotas de importação: quanta carne, açúcar, arroz e mel entram a mais
A parte mais contestada do acordo é a que define quotas de importação agrícolas. Aqui ficam estabelecidas quantidades concretas que, todos os anos, podem entrar na UE com tarifas reduzidas ou sem tarifa.
| Produto | Quantidade anual importada para a UE |
|---|---|
| Carne de bovino | 99.000 toneladas |
| Aves | 180.000 toneladas |
| Açúcar | 180.000 toneladas |
| Arroz | 60.000 toneladas |
| Mel | 45.000 toneladas |
Carne de bovino e aves: o foco do conflito com os agricultores
É sobretudo na carne que se acendem os alertas. Criadores sul-americanos conseguem frequentemente produzir a custos muito inferiores aos dos seus pares europeus, muitas vezes com padrões ambientais e de bem-estar animal menos exigentes. O receio dos agricultores: a Europa passa a importar carne barata, enquanto os produtores locais têm de cumprir regras rigorosas e ficam sem capacidade para competir.
No caso das aves, a preocupação é semelhante. Grandes grupos do abate podem intensificar a aposta em importações se estas se tornarem mais atrativas no preço. Quem sente mais o impacto são explorações familiares de menor dimensão, já pressionadas pelo custo da ração, pelos preços da energia e por exigências regulamentares elevadas.
Açúcar, arroz, mel: produtos do dia a dia com potencial de conflito
À primeira vista, açúcar, arroz e mel parecem menos sensíveis. Ainda assim, também aqui o equilíbrio do mercado pode mudar.
- Açúcar: maior entrada de açúcar de cana sul-americano pode pressionar em baixa os preços recebidos por produtores europeus de beterraba.
- Arroz: o produto importado pode afastar arroz do sul da Europa ou de zonas de produção mais pequenas, sobretudo no segmento de preço mais baixo.
- Mel: mel importado mais barato dificulta que apicultores trabalhem com margens sustentáveis quando seguem padrões elevados de qualidade e ambiente.
Para quem valoriza a origem regional, será cada vez mais importante ler atentamente o rótulo.
Como o acordo pode notar-se no supermercado
A pergunta decisiva para quem compra é simples: o acordo Mercosur reflete-se no preço final? No curto prazo, muitos efeitos podem perder-se no “ruído” dos preços, porque energia, custos de transporte e alterações do IVA costumam pesar mais.
Num horizonte intermédio, porém, alguns artigos podem ficar mais baratos, sobretudo:
- Carne de bovino e de aves importada da América do Sul
- Produtos com açúcar, se as matérias-primas baixarem
- Arroz e refeições processadas com componente de arroz importado
- Misturas de mel em que existe mel importado
Ao mesmo tempo, existe o risco de fornecedores regionais saírem do mercado se não conseguirem acompanhar os preços. Nesse cenário, desaparecem das prateleiras alternativas mais caras, mas de maior qualidade - e a oferta tende a tornar-se mais uniforme.
Em que os consumidores devem prestar mais atenção a partir de agora
Para perceber até que ponto as compras do dia a dia podem ser afetadas pelo acordo, ajudam algumas práticas simples:
- No caso da carne, ler a indicação de origem e escolher de forma consciente entre produto da UE e produto de fora da UE.
- No mel, confirmar se o frasco identifica um país de origem específico ou se usa apenas fórmulas genéricas como “mistura de méis da UE e de fora da UE”.
- Optar deliberadamente por arroz de determinadas regiões quando a qualidade e a origem são critérios importantes.
- Manter atenção a selos como DOP e IGP (indicações de origem protegida).
"Quanto maior a transparência no rótulo, mais fácil é tomar uma decisão informada - apesar de um acordo comercial global."
Contexto: porque é que o acordo é tão controverso
Muitos governos e empresas encaram o Mercosur como uma ferramenta para abrir mercados e reforçar oportunidades de exportação. Já os críticos alertam para um possível “nivelamento por baixo” em padrões ambientais e sociais.
Um exemplo frequente: em partes da América do Sul, a pecuária e o cultivo de soja contribuem para a desflorestação de áreas valiosas. Se as exportações de carne e de matérias-primas agrícolas aumentarem, ambientalistas temem danos adicionais para o clima e para a biodiversidade.
Em paralelo, agricultores europeus confrontam-se com a questão de como financiar padrões mais elevados e custos crescentes quando o mercado se abre a concorrência mais barata. Muitas explorações consideram que as perspetivas de futuro se deterioram e pedem controlos mais apertados e obrigações claras de rotulagem.
O que significam, na prática, termos como tarifa, quota e selos de origem
Algumas palavras surgem constantemente quando se fala do Mercosur, mas nem sempre são claras. Em resumo:
- Tarifa aduaneira: valor cobrado na passagem de fronteira que encarece a importação.
- Quota: quantidade definida que pode ser importada em condições mais favoráveis; ao ultrapassar esse limite, voltam a aplicar-se tarifas mais elevadas.
- DOP / IGP: selos que procuram garantir que um produto vem efetivamente da região cujo nome utiliza.
Com estes conceitos, torna-se mais simples avaliar que produtos podem ser mais afetados pelo acordo e em que medida decisões políticas podem chegar diretamente ao carrinho de compras.
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